Ainda o aborto

Fevereiro 19, 2008

foetus_by_lynnlae

Um ano após o referendo que deu lugar a nova legislação sobre a exclusão da ilicitude nos casos de interrupção voluntária da gravidez, continua a mesma discussão, quando seria de esperar essencialmente nova discussão sobre os aspectos positivos e negativos da designada “Lei do Aborto”, com vista à eliminação dos aspectos negativos.

João César das Neves afirmou recentemente o seguinte:

«Após apenas 12 meses as organizações pelo “sim” desapareceram quase por completo. Aliás nunca foram muitas, pois o campo era liderados por partidos. Essa ausência parece natural. Ganharam, mudaram a lei, descansam.»

As organizações pelo “sim” não eram muitas mas, curiosamente, o o dia do referendo mostrou um tendência para o “sim” à IVG nos termos do que era questionado.

Este professor universitário prossegue, logo de seguida, com a seguinte frase:

«E não estão ociosas. Vamos vê-las em futuras lutas, da eutanásia e procriação assistida ao casamento de homossexuais. Mas aborto é tema passado.»

É uma frase deveras esclarecedora e curiosa. Relega-se a defesa da procriação assistida para os defensores do “sim” à interrupção voluntária da gravidez, até às 10 semanas, supostamente defensores da morte. Se espremermos bem o sumo da frase, passamos a ter uma ideia qual o sentido da vida para João César das Neves, bem como para outros defensores do “não” à IVG.  Pergunto-me, se  JCN também pertence ao grupo daqueles defensores da “vida” que, quando avista uma jovem mãe atrapalhada, com a sua criança ao colo, numa rua ou transporte, não só não presta auxílio como ainda lhe dirige um olhar moral de reprovação. E que conclusão poderemos extrair, quando combinamos a afirmação anteriormente indicada com a seguinte frase, a qual termina o discurso:

«O “sim” é a favor da escolha, um conceito moral, filosófico, enquanto o “não” é pela vida, um assunto biológico, animal. É a mesma diferença que existe entre um direito e um bebé.»

Contradição, é a minha interpretação. É que  o “não” contra a homossexualidade é um conceito moral, enquanto que, o “sim” pelo direito à homossexualidade é um assunto biológico, animal.

Uma criança não é ápenas um ser vivo, uma criança é ums ser dependente que precisa tanto de afecto como de carinho e atenção, não constando das suas necessidades violência física ou psicológica, muito menos uma morte cruel após um corpo a funcionar em pleno ou um abandono numa rua fria ou quente.

Este país precisa de crianças minimamente felizes, não de futuros jovens problemáticos. Este país não precisa de mais crianças que a chegar à adolescência, ainda esperam uma família que as acolha. Este país não precisa de movimentos a favor do “não” ao aborto com máscara de movimentos de apoio à vida, este país precisa de mais movimentos ou associações de verdadeiro apoio à vida, que dêem apoio a todo o tipo de mães, desde as adolescentes às que estejam severamente afectadas por problemas psicológicos ou económicos.

Por fim, este país precisa de uma nova mentalidade; de pais que não impessam as filhas de prosseguir estudos por estarem grávidas; de pais que não se abstenham de educar os seus filhos em conformidade com a sexualidade; de pais que não se abstenham de educar os seus filhos de sexo masculino em conformidade com o dever de responsabilidade perante um filho; de cidadãos que, em vez de olhar com olhar reprovador mulheres jovens grávidas ou com crianças, as olhem com olhos de quem contempla um ser humano que carrega dentro ou consigo uma vida; de cidadãos que olhem para a mulher como um ser humano, não como um dispositivo electrónico que gera e cria filhos.

«Um dos meus receios era o que as pessoas iam dizer quando soubessem que estou grávida. Chorei muito quando soube, mas o apoio da minha família ajudou-me. Tinha algum medo da reacção do meu pai, mas ele reagiu normalmente. Agora é um avô e pai babado», contou Maria (nome fictício), jovem de 17 anos grávida de 4 meses. Maria compreendeu a sorte que teve. «Não consigo imaginar como teria sido se os meus pais não me tivessem apoiado”, admite.»

Caso diferente o de Ana (nome fictício). «Conheci-o num fim-de-semana num festival. Nunca pensei que uma só noite pudesse mudar tanta coisa», contou. Com 16 anos, esperava o seu primeiro filho, sem ser possível contar com o apoio do pai da criança. «Ele não quis saber e mudou o número de telemóvel. Felizmente que a minha mãe está comigo, senão já me tinha ido embora». Ana deixou a escola e iniciou a busca de um emprego. «Tenho que a sustentar, não é? O que a minha mãe ganha não é suficiente para todas».

Vou, ainda, deixar uns excertos de uma notícia  do Jornal de Notícias de 18 de Dezembro de 2007, servem de resposta a um dos argumentos do “não” à IVG, numa altura em que se debatem os argumentos do “sim”.

«Oito em cada dez mulheres queriam saber como se faz um aborto até às dez semanas e as dificuldades económicas foram as razões mais invocadas para não levar a gravidez por diante. No primeiro ano de funcionamento, a linha “Opções” - que presta aconselhamento sobre gravidez não desejada e contracepção - registou sete centenas de pedidos de informação e encaminhamento para interromper voluntariamente a gravidez.

Cerca de 90% das chamadas tinha como objectivo obter informações sobre a IVG e a grande maioria das mulheres já tinha tomado a decisão de fazer aborto.

A situação económica é o motivo mais apresentado para a realização da IVG (21% do total das chamadas). Não querer ter mais filhos, situação profissional, idade e instabilidade conjugal foram outras razões invocadas.

Outro dado relevante para a compreensão do fenómeno do aborto é que apenas 22% dos namorados e 20% dos maridos tinham conhecimento da gravidez. Em quase 70% dos casos, os utilizadores afirmaram ter utilizado contracepção, sendo a pílula o método mais usado (45%), seguindo-se o preservativo (39%).»

Para terminar o assunto dos movimentos a favor do “não” à IVG, excerto de texto publicado a 11 de Fevereiro de 2008 da página da Plataforma do Grupo Cívico “Algarve pela Vida”:

«O nosso iluminado Governo teve mais uma brilhante ideia:

- Para ele, a forma de diminuir os abortos é distribuir preservativos à tranga lamanga. Curiosamente, encontrei esta história na caixa de comentários do blog da Ka:

“Eu explico, custou-me muito assistir ao sofrimento de uma amiga minha, mais ou menos há 18 anos atrás, que ficou grávida, e o que aconteceu foi um preservativo mal posto e no calor da coisa nem deram pelo o que aconteceu.”

Ou seja, como o preservativo está longe de ser infalível e é até uma das causas das gravidezes indesejadas, vão-se distribuir mais preservativos que é para aumentar a probabilidade de gravidezes indesejadas e assim aumentar o aborto…

Brilhante!»

Mais uma demonstração da forma como alguns destes movimentos apoiam a vida. O que pretendem que o Governo faça a favor da vida? Será que defendem a abstinência sexual, a distribuição à “tranga lamanga” da pílula ou simplesmente a alteração da Lei n.o 16/2007 de Lei n.o 16/2007 no sentido de, voltar-se à ilicitude nos casos de interrupção voluntária da gravidez?

Felizmente, há também projectos que se dedicam plenamente ao trabalho pela vida no seu sentido mais amplo, um deles é o projecto AMA (Apoio às Mães Adolescentes), a decorrer desde Março de 2005 no Centro de Saúde de Vila Franca do Campo. O projecto resultou da constatação da incidência de um número cada vez maior de mães adolescentes com dificuldades na prestação e autonomização dos cuidados aos recém-nascidos, tem como objectivo o aumento da qualidade de vida da mãe adolescente e do seu filho. Este projecto não está só, há ainda, a Ajuda de Berço, o S.O.S. Vida, a Associação de Defesa e Apoio da Vida, a Associação Tudo pela Vida, o projecto A Vida Nasce, o Gabinete de Apoio à Grávida, a Associação Vida Universitária, de ente outros projectos, associações ou grupos de apoio.

Ligações com interesse: Pela Vida (não à interrupção voluntária da gravidez); Linhas telefónicas de informação e apoio na área da saúde e sexualidade juvenil; Projecto AMA (Apoio às Mães Adolescentes); Reportagem Mães adolescentes no Oeste/O que fazer em caso de gravidez; Situação económica é a principal razão para as mulheres abortarem; Cerca de mil abortos legais por mês.

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