Geração em saldo
Março 8, 2008
Geração em saldo é o título de um artigo publicado na revista Visão, da autoria de Clara Teixeira e Joana Filol. O texto versa sobre a actual situação de desemprego e precariedade de milhares de jovens portugueses, com habilitações de nível superior (essencialmente licenciatura e mestrado). A informação é do interesse de qualquer jovem. Deixo alguns excertos.
««Os nossos pais deram-nos mais do que tiveram, mas nós temos menos do que eles.» Clara Caldeira, 30 anos, licenciada e mestre em Comunicação, habituou-se a ter «a vida sempre adiada». «Se deixar de trabalhar, deixo de ganhar», afirma. Por isso, vive ao ritmo dos trabalhos temporários que vai arranjando, na área da escrita criativa e do guionismo. Da única vez que fez um contrato, pelo prazo de um ano, alugou casa no centro de Lisboa. No resto do tempo, a regra tem sido a do recibo verde a troco de mil euros mensais. Metade desaparece da conta bancária até ao dia 8 de cada mês, para pagar as despesas fixas de casa. Com a outra metade, vai ao cinema, janta fora duas ou três vezes por mês, bebe um copo à noite com os amigos, paga o táxi de regresso a casa, e vai fazendo uma gestão rigorosa da dívida à Segurança Social. No banco, mantém um fundo de maneio, guardado para uma fatalidade – leia-se, ficar sem trabalho – que lhe chega para viver dois meses sem ordenado. Agora, ganha um pouco mais do que os mil euros a que a sua geração parece predestinada, mas só durante seis meses. Em Maio, termina a colaboração com a produtora de Depois do Adeus, o novo programa de Maria Elisa, na RTP. Se a coisa não se compuser, a casa de família serve de recuo.
Como Clara, a CGTP contou no ano passado 863 mil trabalhadores com vínculos precários. O número só peca por defeito: não inclui estagiários nem falsos recibos verdes. Os resultados do Inquérito ao Emprego do INE, trabalhados pela agência Lusa, apontam para que, em 2007, 43 mil licenciados tenham desempenhado trabalhos de baixa qualificação ou não qualificados. E para 60 mil diplomados no desemprego. Nos centros de emprego, estão inscritos.
40 mil – um número igual ao de novos licenciados que todos os anos saem das universidades. Não se pode, porém, ler nestes números que tirar um curso não compensa. São outras as razões para a geração que Vicente Jorge Silva baptizou de «rasca» estar hoje «à rasca».
Catarina Matias, 31 anos, licenciou-se em História, fez uma pós-graduação em museologia e, desde então, não parou de somar trunfos: estagiou no Victoria & Albert Museum, em Londres; venceu um concurso internacional e foi para o Qatar trabalhar no Museu de Arte Islâmica («o único contrato verdadeiro que tive até hoje»); regressou a Portugal, não arranjou emprego e partiu para o Museu do Louvre, em Paris, onde se autopropôs como estagiária. Pelo meio, deu aulas, estagiou no Museu Machado de Castro, colaborou com o IPPAR, em Coimbra. Desde Novembro, está desempregada, a viver do que amealhou nas Arábias: «Esticadinho chega para os próximos quatro ou cinco meses», prevê. Envia dezenas de cartas por mês: «Não me importava de não ter um emprego para a vida desde que me dêem a oportunidade de ter trabalhos», explica. Não falta quem abra a boca de espanto perante o currículo, mas, «na hora da verdade, ignoram».
Também Vera Assis Fernandes, 37 anos, tem um currículo irrepreensível. Licenciou-se em Geologia, tornou-se mestre em Geoquímica Lunar, nos Estados Unidos, e de seguida doutorou-se em Cronologia e Petrologia Lunar, em Inglaterra. Portugal «caçou» este cérebro em 2003, com uma bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Vera regressou, durante cinco anos, para fazer o pós-doutoramento no Instituto de Geofísica da Universidade de Coimbra. Missão: estudar dados obtidos remotamente pela missão Mars Express, patrocinada pela Agência Espacial Europeia – da qual Portugal faz parte. Em Coimbra, só encontrou «falta de vontade, falta de espírito de equipa, falta de interesse a nível nacional». Em finais de 2007, depois de muito batalhar, voltou a fazer as malas e partiu para Berkeley, na Califórnia – antes escreveu para o Público um manifesto: Portugal poderá estar a dizer ‘não’ a futuros Einsteins e foi, então, recebida em audiência no Ministério da Ciência, em Agosto de 2005.
A procura de emprego dos diplomados, o ministro da Ciência e do Ensino Superior, Mariano Gago, frisou que, nos últimos quatro anos, o número de licenciados inscritos nos centros de emprego não se alterou, o que revela a capacidade do mercado de trabalho para absorver o aumento de 20% da população com curso superior. A taxa de desemprego, nesse escalão, atinge 7,5% – um valor próximo do total nacional. «Quando as pessoas aumentam a qualificação, não é imediatamente que a economia reage», continua Francisco Madelino.
«Estimular o crescimento da economia é essencial para criar mais e melhores postos de trabalho, e aproveitar melhor os recursos humanos», vaticina, à VISÃO, o comissário europeu do Emprego e Assuntos Sociais, Vladimir Spidla. No caso de Portugal, uma particularidade é salientada pelo responsável europeu: a maioria dos jovens atribui a falta de emprego à ausência de oportunidades; já na Finlândia a maior parte dos entrevistados pela Gallup considera que a escassez de experiência é a razão principal.
João César das Neves, economista e docente na Universidade Católica, comenta: «Há muitas universidades más, que formam alunos para o desemprego.» Privadas e públicas, nas grandes cidades e no Interior.
O economista salienta o desajustamento entre a formação dada em muitas universidades e aquilo que o mercado de trabalho procura. «Um curso de Direito é barato, é só papel e lápis, por isso todos os anos são formados milhares de alunos. Para quê?», pergunta. Mas, apesar deste desajustamento, concorda com o discurso governamental de que Portugal precisa de produzir muito mais diplomados. Qual é, então, a solução? «É difícil disciplinar as universidades, mas é preciso fazê-lo», sugere César das Neves.
António Dornelas, sociólogo do ISCTE que integrou a comissão do Livro Branco para as Relações Laborais, também indica o acesso à escolarização, incluindo à universidade, como a melhor saída para o problema: Num país de microempresas, predominam empregadores que, na maioria dos casos, têm, aos 50 anos, a escolaridade típica do Portugal de há três décadas: 4 ou 6 anos de escolaridade. Esta realidade – chamada de «conspiração grisalha» por Francisco Ribeiro Mendes, ex-secretário de Estado de António Guterres – é, para António Dornelas, uma «barreira natural à integração dos jovens». Quando, porém, se compara a estrutura empresarial dominante com as novas empresas, criadas recentemente, onde aumenta o número de mulheres empresárias, qualificadas, e mais jovens, «o outro País aparece…», garante António Dornelas. Mas enquanto o primeiro domina a paisagem, é necessário «evitar os erros do passado», mantendo os incentivos à escolarização, «recalibrando» a regulação dos mercados de trabalho e a protecção social, reduzindo a duração máxima dos contratos a termo (de 6 para 3 anos) e combatendo a fraude na contratação a recibos verdes. Estas são algumas das propostas que o Governo pondera assumir na próxima revisão das leis laborais.
Tiago Gillot, dos Precários Inflexíveis (PI), nota que «a precariedade não se limita ao trabalho, já chegou à escola, à habitação, à saúde. É uma proposta de vida baseada na incerteza, no fim de uma sociedade equilibrada», adverte. Em nome individual ou de organizações que têm encabeçado esta luta. André Soares, 27 anos, do Fartos d’Estes Recibos Verdes (FERVE) aproveita para alertar que falar em casa ou no café não chega: «As pessoas têm de ir para a rua, só assim o fenómeno se torna visível.»
Catarina (nome fictício), 25 anos, é uma coleccionadora de estágios. Terminou o curso de Geografia, variante Planeamento e Gestão do Território, em 2005. Desde então fez três. O curso que tirou não previa a realização de estágio curricular, mas ela quis fazê-lo. «Era uma oportunidade de arranjar emprego e terminar o curso com experiência profissional.» Licenciou-se, mas continuou estagiária. Uma Câmara Municipal da Região Centro recebeu-a duas vezes: primeiro ao abrigo de um estágio profissional do IEFP, depois no âmbito do Programa de Estágios Profissionais na Administração Local (PEPAL). O tutor «pouco ou nada» a acompanhou, mas a experiência – «a fazer exactamente as mesmas funções de colegas que estavam a contrato ou recibo verde» – foi útil: «Aprendi por mim mesma.» O desânimo veio no final: «Fui avaliada com muito bom, eles precisam de pessoas, então porque não fiquei?», interroga-se.
O sociólogo Elísio Estanque alerta para o «factor de retrocesso em termos de incentivos às novas gerações» que pode constituir o facto de as empresas porem «jovens a exercer tarefas para as quais estão sobrequalificados».
Inês (nome fictício) tem medo de chegar a essa fase: «Nessa altura, o meu psicólogo vai ter de trabalhar ainda mais.» Por enquanto, com 30 anos, paga para estagiar, num conceituado gabinete de decoração de interiores, onde trabalha. Licenciada com 19 valores em Arquitectura de Interiores, com uma pós-graduação em Reabilitação, Remodelação e Restauro em Arquitectura, viu-se, em Novembro passado, sem emprego, depois de vários anos a trabalhar como freelancer. Entre estar em casa e estagiar gratuitamente num reputado ateliê, preferiu a segunda hipótese: «Sempre enriquece o meu currículo.» Entra às 9 e 30, sai depois das oito da noite e é repreendida se pede para sair mais cedo. Entretanto, vive «do mealheiro» e vai tentando calar a revolta com um pensamento positivo. Vive sozinha, numa casa do pai, o carro está parado: foi trocado pelo metro. O sarcasmo, esse, parece uma marca de geração: «Vivo numa casa de classe média alta, mas sou mais pobre do que a porteira.»»


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