Depois de ter sido divulgado um determinado vídeo, deparei-me por diversas vezes com quantidades enormes de comentários ao sistema de ensino público português. Vários deixaram-me preocupada, não só com o referido sistema, mas também com o nível de conhecimento e respectivas posições dos comentadores.

Uma quantidade enorme de comentários provinha de indivíduos que, apesar de disporem de acesso a uma ligação à Internet, um mundo de informação à distãncia de um clique, revelaram um total desconhecimento da informação mais básica sobre educação, sobre ensino, sobre o desenvolvimento de crianças e jovens, de entre outros aspectos relevantes para o assunto em questão.

Preocupante será pensar que alguns destes comentadores, alguns deles fervorosos adeptos do autoritarismo como base da educação, traduzido na utilização gratuita de castigos corporais (denomidados nos comentários como “palmadas”, “tabefes”, “reguadas”, “cargas de porrada”, levar com objectos em cima, entre outros termos e expressões), vários dos quais desinteressados de ciências como a psicologia e a sociologia, poderão no presente ou futuro colocar em prática essas metodologias. Tal como se fez no passado mas, agora, num mundo globalizado e tecnológicamente avançado, não só para quem educa, também para quem é educado.

A mesma preocupação para com aqueles que consideram, que devido a exigências profissionais para com pais ou outros detentores do poder paternal, deve ser a escola a detentora exclusiva ou maioritária do dever de educar, cabendo à família pouco mais do que custear as despesas da criança ou jovem.

«Comecemos por assinalar que raramente se emprega a palavra educação sem lhe limitar imediatamente o sentido. Ao usá-la, pensa-se na Escola e, no entanto, a educação faz-se, inicialmente, na família, sem falar desse “meio-termo” que é constituído pela rua, o desporto, os movimentos de juventude, os media, etc. Pensa-se no ensino, como se a educação não fosse tanto física, estética, moral, afectiva, como técnica e intelectual. Pensa-se na criança, mas não estão os adultos, também eles a educar-se sem cessar, mesmo que não seja senão pela experiência da vida: Como dizia Platão, “ão necessários cinquenta anos para fazer um homem”, (Republica).

Platão disse: ”Entendo por educação (paideia) a virtude que as crianças adquirem, em primeiro lugar”.

Como se sabe, a família sofreu uma retracção considerável no mundo moderno. Em termos de volume, foi restringida ao casal e aos filhos menores.

Foi também restringida nas suas funções: ela não é hoje senão uma comunidade de habitação e de consumo. Também a autoridade dos pais diminuiu, em especial a do pai sobre os descendentes. Esta autoridade foi limitada, não apenas pelo Estado, mas também pelos costumes e pelas crenças. Os pais já não podem decidir sobre o casamento ou a profissão dos filhos. Tem-se mesmo a impressão de que os pais já não podem decidir sobre nada! Ainda assim, a família mantém as duas funções principais relativamente aos jovens: protegê-los (alimentá-los, vesti-los, cuidar deles, etc.) e educá-los.

E é aqui que aparece o paradoxo: ainda que controlada, ainda que contestada, a autoridade dos pais sobre os filhos é no fundo muito mais real que aquela que um Luís XIV ou um Napoleão podiam sonhar exercer sobre os seus súbditos. Se os pais não têm o direito de vida ou de morte sobre os seus filhos, no entanto, é por seu intermédio que a criança vive e escapa à morte.

Eles podem não apenas impor-lhe ou proibir-lhe determinado comportamento mas também modelar os seus pensamentos e sentimentos mais íntimos e mais duradouros. O poder parental continua a ser o mais “absoluto” dos poderes, razão pela qual trememos ao pensar que pode estar confiado a seres brutais, sádicos, fracos, limitados, vulgares, neuróticos, ou simplesmente a qualquer um.

Assim se explica porque razão tantos pensadores se revoltam contra a família: “Fazer filhos, escreve Sartre, nada há de melhor! Tê-los, que iniquidade!” (As Palavras). É que esta palavra “ter” representa uma forma exorbitante do direito de propriedade: a posse de um ser humano cujo destino temos o poder de determinar. Enquanto instância protectora, a sociedade fechada que a família é desempenha um papel essencialmente conservador. Ela desconfia, como se da peste se tratasse, de toda a inovação social, de todo o não-conformismo, de toda a revolta, enfim, de todo o pensamento. Enquanto educadora, a família é por essência uma sociedade hierárquica que repudia a igualdade. Ter razão face a um irmão mais velho, ou pior ainda, face a um pai ou a uma mãe, é injuriá-los. Piaget demonstrou que a criança só aprende na família uma moral de constrangimento e de submissão a uma regra que é tanto mais sagrada quanto menos é compreendida. Protegendo e educando, a família arrisca-se sempre a fazer da criança um eterno menor.

Estas críticas não se dirigem apenas à má família, aos pais egoístas ou brigões, mas também à família unida, afectuosa, feliz. É esta, no fundo, que Gide reprova enquanto “regime celular” cujas barreiras são os braços das pessoas amadas. A afeição mútua, a preocupação de não magoar, de aceitar e ser aceite, são também um impedimento a toda tentativa de crescimento interior, de emancipação e de ultrapassagem de si próprio. A família permanece unida porque cada um aceita, de uma vez para todas, desempenhar sempre o mesmo papel, sem mudanças, sem surpresas. Aqui reside sem dúvida uma das grandes causas da famosa crise da adolescência. Os pais não admitem que a criança de ontem se torne subitamente um outro ser, com os seus segredos, as suas ideias, as suas revoltas. Daí, o conflito.

Actualmente, a autoridade da família é contestada tanto na América como nos países subdesenvolvidos. Por todo o lado, ela surge como aquilo que entrava o livre desenvolvimento do indivíduo. E, como bem se disse, a revolta do homem moderno passa principalmente pela morte simbólica do pai ou, mais raramente, da mãe. E isto porque estas autoridades são o modelo e a substância de todas as outras - a de Deus, da razão, da sociedade, do chefe - sendo, ao mesmo tempo, o mais irracional dos constrangimentos. Longe de se atenuarem, estas críticas são muito mais frequentes e violentas hoje do que há cinquenta ou mesmo vinte anos atrás.

Talvez porque o laço familiar, ao retrair-se, se reforçou. Porque a família perdeu a maior parte das suas funções exteriores, foram reforçadas as duas funções que fizeram dela precisamente uma célula social: a função de protecção num mundo onde o indivíduo está cada vez mais só e diminuído, tal como um átomo no meio da massa, e a função de educação num mundo onde desaparecem os meios educativos espontâneos, como a aldeia, a igreja, o bazar, etc. e onde a escola, na melhor das hipóteses, dá apenas instrução.

O laço familiar tem por função transformar os instintos mais brutais, a sexualidade e a maternidade, em tendências “altruístas” ou sociais e, assim, humanizar o homem. É essa a educação fundamental e a família não a realiza porque ensina mas sim porque existe, permitindo que cada um desempenhe o seu papel. Basta ser criança para descobrir no amor maternal o modelo de todo o tipo de amor, na afeição paternal o modelo de toda a obediência mas também de toda a veneração. Digamos que a família é razão suficiente mas que necessariamente falha. Como escola de sentimentos, a família é insubstituível. Comte não se iludia sobre quão abusivo, egoísta e prejudicial o laço familiar podia ser. No entanto, via nele o único meio de permitir ao homem conhecer o homem e amá-lo.

Por fim, a educação familiar é também uma educação para adultos. Em primeiro lugar, o do homem e da mulher, na experiência do casal; depois, da maternidade e da paternidade que a educação familiar ensina a sentir. A criança é educadora dos seus pais. Esta é, provavelmente a verdadeira resposta a Jean Paul Sartre.

Até nova ordem, o papel da família é insubstituível. Mostrou-se que as crianças privadas dos pais estão à partida cruelmente desfavorecidas, às vezes, até mesmo fisicamente. Face a uma sociedade indiferente, mesmo hostil, as crianças podem até sentir-se “culpadas de existir”, o que as impede de se desenvolverem normalmente visto que o crescimento normal exige afeição.

Este papel é assumido pela família, não através do ensino, mas através da sua simples existência. Quer dizer, do seu amor. O amor familiar é frequentemente cego. Às vezes violento e cruel. No entanto, constitui uma ocasião única no mundo, para o indivíduo, homem ou mulher, adulto ou criança, de se encontrar como pessoa, como alguém insubstituível.

Resta dizer que a educação familiar é sufocante se não se estabelece, noutro lado, uma contrapartida. É principalmente a escola que hoje desempenha este papel. Alain via na escola e na família duas instituições complementares, cada uma assegurando funções opostas. Face à hierarquia doméstica, a escola assegura a igualdade entre crianças de uma mesma idade. Ela não desenvolve os sentimentos mas o entendimento. O valor inspirador da escola não é o amor mas a justiça.

A família moderna assume a função primeira de educação: formar os sentimentos. Da mesma maneira, também assume as outras globalmente: inicia, forma, ensina. Mas, pouco depois, começa a revelar-se insuficiente nas tarefas que constituem a instrução, tarefas essas que serão desempenhadas por instituições especiais, cada uma correspondendo a um tipo diferente de instrução.

Comecemos pelo adestramento (dressage). Trata-se de uma técnica aplicada à domesticação dos animais que se estende às crianças e mesmo aos adultos (exército) quando estes são habituados, por ameaças ou recompensas, a fazer dócil e mecanicamente o que deles se espera.

Tanto pela sua finalidade como pelo seu resultado, o adestramento é pois, como diz R. Hubert, “o contrário da educação” (Tratado de Pedagogia Geral). Mas Hubert acrescenta pouco depois: porque o homem é, também e em primeiro lugar, um animal há sempre uma parte de adestramento em toda a educação.

O adestramento puro é sem dúvida mais raro do que se crê e significa sempre, como diz K.Goldstein, uma conduta de catástrofe: tanto para o educador que adestra e que não consegue fazer-se compreender e amar, como para o educando que terá que adoptar uma rotina em vez de compreender e de querer.

O que distingue então a aprendizagem do adestramento?

Por um lado, a iniciativa, a motivação interna do sujeito para aprender. Se o rato aceita ir de encontro aos obstáculos do labirinto é para sair. Por outro lado, o risco de insucesso, de decepção, que o sujeito de alguma maneira assume é condição mesma da aprendizagem. A aprendizagem é completamente activa e é nesse sentido que é eficaz. Um rato que se põe a correr no labirinto acabará, depois de várias tentativas, por sair sem hesitações; aquele a quem se mostra o bom caminho nunca o aprenderá. Do mesmo modo, uma criança não aprende a escrever se lhe segurarmos na mão.»

Excertos retirados do texto O que é educar?, da autoria de Olivier Reboul.

«Educador e educado são seres da mesma espécie. Só se distinguem um do outro pelos saberes ou pelas capacidades, resultantes quase sempre de uma diferença de idade. Por isso, não se deve confundir a educação com a domesticação. Através da domesticação, um ser de uma certa espécie - homem na maioria das vezes, mas nem sempre (pensemos nas formigas esclavagistas) - impõe a um ser de outra espécie modos de agir a que este não seria levado, ou por atavismo, ou pela acção dos seus semelhantes.

Não é totalmente ilícito falar de domesticação quando se trata de certos métodos educativos ou das brutalidade com as quais alguns regimes político se impõem aos corpos e às almas. Mas, com a condição de nos entendermos. Se o pedagogo cruel, o escravizador, certos dirigentes usam a domesticação em relação às crianças ou adultos é como se, entre educador e educado, entre patrão o escravo, entre detentor da autoridade e aqueles que lhe estão submetidos, tivesse sido introduzida uma verdadeira diferença de essência. Uns usam em relação aos outros métodos que o domesticador utiliza, ou supõe-se que utiliza, em relação aos animais. Daí que, a pior das educações nunca é domesticação, a não ser por analogia. E a suavidade de certas domesticações nunca as transforma em educação.»

Excertos retirados do texto O pensamento educativo contemporâneo, por Jacques Ulmann.

Para mais informação, ler: O conceito de ensino, por John Passmore, O que é ensinar?, por Paul H. Hirst, Educação para um Mundo Difícil, por Bertrand Russell, Apontamentos para uma educação para o futuro, por Ortega Y Gasset, Pedagogia e Anacronismo, por Ortega Y Gasset, As origens da educação superior em Atenas. O Lyceum e a educação ateniense antes de Aristóteles, por John Patrick, A Automação e as suas Implicações no Ensino, por Jorge Luís  Mascarenhas e A automação. Aprender um modo de vida, por Marshall Mc Luhan.

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