Desinteresse do público pela ciência, um mito
Junho 20, 2008
«Julgamos, muitas vezes, que o público está pouco interessado na actividade científica e cultural e que está mais atento a notícias sensacionalistas, a intrigas e a pormenores secundários da vida. Se isso pode ser verdade em termos gerais, a realidade é que há uma parcela importante do público, talvez sobretudo no público jovem, que está atenta ao noticiário científico e que tenta seguir as descobertas importantes do nosso tempo, assim como as polémicas científicas e culturais.
O que acontece é que há muita gente que se desinteressa daquilo que nós, cientistas e académicos, julgamos importante, pela simples razão que não sabemos chegar a essas pessoas e que não percebemos que a divulgação científica é radicalmente diferente da actividade de ensino académico.
Há sinais bem visíveis do interesse do público. (…) Outro bom exemplo é o crescente interesse pela literatura de divulgação científica. Praticamente todas as grandes editoras portuguesas começaram a publicar livros dos melhores autores de divulgação. Publicam-se hoje incomparavelmente mais obras sobre ciência do que o que se fazia há poucos anos.
Outro factor novo e entusiasmante é a proliferação de planetários, centros Ciência Viva, museus de ciência e locais similares que aparecem um pouco por todo o país. É certo que esses locais são menos visitados do que muitos dos seus congéneres estrangeiros, nomeadamente norte-americanos. Mas a verdade é que são muito mais frequentados do que muitos museus tradicionais.
Finalmente, a própria imprensa dedica muito mais páginas à ciência do que o que fazia há poucos anos. Praticamente todos os grandes diários e semanários têm secções de ciência ou de ciência e ambiente.»
Excertos do texto O mito do desinteresse do público, da autoria de Nuno Crato, inserido no contexto da temática Algumas Experiências de Divulgação da Matemática na Imprensa Portuguesa.
Nuno Crato é professor de Matemática e de Estatística no ISEG, pró-reitor da UTL, coordenador científico do centro de investigação Cemapre e um dos mais conhecidos e reconhecidos divulgadores portugueses. Foi galardoado em 2008 pela Comissão Europeia com o segundo lugar na categoria de Divulgador Científico do Ano.
